Moçambique está a entrar numa nova fase da sua indústria cimenteira, marcada pelo aumento da capacidade de produção integrada e pela redução da dependência de clínquer importado. O lançamento da primeira pedra da indústria integrada de clínquer e cimento da Clay & Gravel Holding, no distrito de Chibabava, província de Sofala, surge como mais um passo numa transformação que poderá aproximar o país da auto-suficiência e, simultaneamente, criar condições para reforçar as exportações para os mercados da região.
A unidade de Chibabava está projectada para produzir aproximadamente 950 mil toneladas de clínquer e 1,2 milhões de toneladas de cimento por ano, colocando-se, quando entrar em funcionamento, entre as maiores capacidades individuais instaladas em Moçambique. Mais do que acrescentar produção, o projecto terá uma cadeia integrada, permitindo produzir localmente o próprio clínquer, um produto intermédio essencial para o fabrico de cimento.
Segundo o artigo da Revista Tempo, o Ministro da Economia, Basílio Muhate, destacou durante a cerimónia que a nova unidade poderá contribuir para reduzir a dependência da importação de clínquer, diminuir a saída de divisas e fortalecer a cadeia industrial nacional. (Revista Tempo)
O avanço ganha maior relevância quando analisado à escala do sector. Dados sectoriais citados pela publicação indicam que Moçambique já possuía, em 2024, cerca de 6,6 milhões de toneladas de capacidade nominal anual de cimento, enquanto a procura doméstica é actualmente estimada em aproximadamente 4 milhões de toneladas por ano. Isto significa que, em termos de capacidade instalada, o país já dispõe de potencial superior ao consumo interno estimado.
No entanto, capacidade nominal não significa necessariamente produção efectiva. Factores como disponibilidade de matéria-prima, energia, procura, financiamento, manutenção e logística podem impedir que as fábricas operem próximo da sua capacidade máxima. Durante anos, uma parte da capacidade moçambicana esteve concentrada em unidades de moagem dependentes de clínquer produzido no exterior, tornando a produção doméstica deste insumo uma das principais limitações do sector.
Essa realidade começa a mudar. A unidade da Dugongo, próxima de Maputo, possui capacidade de cerca de 5.000 toneladas de clínquer por dia e aproximadamente 2 milhões de toneladas de cimento por ano. Em 2025, uma nova linha de clínquer em Nacala, com capacidade aproximada de 3.000 toneladas por dia, entrou em produção, enquanto a modernização da unidade elevou a capacidade de produção de cimento para cerca de 1,2 milhões de toneladas por ano, num investimento reportado em 110 milhões de dólares.
A entrada de Chibabava acrescentará mais 950 mil toneladas de clínquer por ano. Paralelamente, a West China Cement está a desenvolver uma nova unidade integrada em Nampula, cuja entrada em funcionamento está projectada para 2027, com capacidade prevista de 3.500 toneladas diárias de clínquer, equivalente a aproximadamente 1,5 milhões de toneladas anuais de cimento.
Se estes projectos entrarem em operação nas condições anunciadas, Moçambique passará a contar com uma base mais ampla de produção integrada de clínquer e cimento distribuída pelo Sul, Centro e Norte do país. Esta expansão poderá tornar a auto-suficiência mais consistente, mas também coloca um novo desafio: encontrar mercado para toda a capacidade disponível.
Com a procura doméstica estimada em cerca de 4 milhões de toneladas anuais, o aumento da produção poderá gerar excedentes caso o consumo interno não acompanhe o crescimento da capacidade. Neste cenário, o desenvolvimento das exportações deixa de ser apenas uma oportunidade adicional e passa a assumir importância estratégica para garantir níveis adequados de utilização das fábricas e evitar pressão sobre preços e margens.
Há, contudo, perspectivas de crescimento da procura interna. O país entrou num ciclo de investimentos de grande dimensão em energia, transportes, logística e infra-estruturas, incluindo projectos de GNL, estradas, caminhos-de-ferro, portos, habitação, escolas e hospitais. Estes investimentos poderão aumentar a utilização de materiais de construção, incluindo cimento. A própria West China Cement estima que o consumo de cimento per capita poderá crescer substancialmente nos próximos anos, embora esta seja uma projecção empresarial e não um resultado garantido. (Revista Tempo)
Ao mesmo tempo, Moçambique já possui alguma presença nos mercados regionais. A produção da Dugongo é comercializada no mercado nacional e exportada para a África do Sul, Eswatini e Madagáscar, enquanto o Malawi é identificado como um mercado regional actualmente abastecido ou com potencial de expansão.
A localização das novas unidades poderá desempenhar um papel decisivo nesta estratégia. Maputo possui ligações rodoviárias e ferroviárias com a África do Sul e Eswatini, Nacala oferece acesso ao Malawi e a outros mercados do interior através dos corredores regionais, enquanto Sofala, onde ficará Chibabava, está ligada ao sistema logístico associado ao Corredor da Beira.
Para uma indústria em que o cimento possui elevado peso e valor relativamente baixo por tonelada, os custos de transporte podem determinar a competitividade. Assim, a localização de Chibabava poderá permitir reduzir as distâncias até aos mercados do Centro do país e, dependendo dos custos e da procura, criar condições para atender também mercados além-fronteiras.
A integração regional através da SADC poderá reforçar estas oportunidades. A Zona de Comércio Livre da organização procura facilitar o comércio entre os Estados-membros e desenvolver cadeias de valor regionais. A publicação destaca ainda que, em Junho de 2026, a SADC publicou um projecto de Regulamento Técnico Modelo para o Cimento, no âmbito dos esforços de harmonização de normas e conformidade na região. (Revista Tempo)
Mas a entrada nos mercados regionais não será automática. Moçambique terá de competir com produtores da África do Sul, Zâmbia, Zimbabwe, Tanzânia e outros países, o que exigirá custos competitivos, qualidade, certificação, regularidade de fornecimento e eficiência logística.
A energia será igualmente determinante. A fábrica de Chibabava deverá integrar uma central fotovoltaica de 12 MW e um sistema de geração de energia através do aproveitamento do calor residual do processo produtivo. Numa indústria intensiva em energia, a redução dos custos energéticos poderá transformar-se numa vantagem competitiva, sobretudo quando a produção moçambicana disputar clientes nos mercados regionais.
O projecto poderá também gerar oportunidades para empresas nacionais. O Governo encorajou a Clay & Gravel Holding e os seus parceiros a privilegiarem mão-de-obra nacional, formação de quadros moçambicanos e utilização de fornecedores locais. A dimensão da indústria poderá criar procura por serviços e fornecimentos nas áreas de mineração, transporte, manutenção, peças e equipamentos, engenharia, segurança, alimentação, logística e outros serviços empresariais.
Neste sentido, a auto-suficiência não deverá ser medida apenas pela capacidade de produzir cimento dentro das fronteiras. Quanto maior for a participação nacional no fornecimento de energia, matérias-primas, manutenção, transporte e serviços, maior será a parcela de valor acrescentado que permanecerá na economia moçambicana.
A expansão da indústria cimenteira poderá, assim, marcar uma mudança importante: de um país preocupado sobretudo em reduzir a dependência de importações para um país com capacidade para produzir, abastecer o mercado interno e procurar novos mercados externos.
Com Chibabava no Centro, Nacala e os investimentos previstos no Norte, e as unidades integradas já existentes no Sul, Moçambique poderá estar a construir uma rede industrial capaz de responder à procura interna e, caso a produção ultrapasse o consumo nacional, transformar o excedente numa oportunidade de exportação.
O desafio da indústria poderá, por isso, mudar rapidamente de “Moçambique consegue produzir cimento suficiente?” para “como colocar competitivamente toda a produção disponível?”. Se os investimentos avançarem conforme projectado, a próxima fronteira será transformar capacidade produtiva em competitividade exportadora e fazer dos mercados da África Austral uma plataforma efectiva para a indústria moçambicana de materiais de construção.
Fonte: Revista Tempo
Imagem: Notícias