A transição energética global está a desencadear uma nova disputa internacional por minerais considerados críticos para a economia de baixo carbono, colocando países como Moçambique sob crescente atenção de investidores e grandes economias industriais.
Com o carvão metalúrgico, a grafite natural e o níquel a assumirem um papel central na produção de baterias, mobilidade eléctrica e tecnologias limpas, Moçambique emerge como um dos territórios africanos com maior potencial mineral ainda por explorar.
O país dispõe de reservas significativas de carvão na região de Tete, grafite em Cabo Delgado e Niassa, bem como perspectivas associadas a minerais estratégicos como o níquel, factores que têm reforçado o interesse de multinacionais e investidores internacionais.
Carvão de Tete continua a ser pilar das exportações, mas com fraca transformação local
A Bacia Carbonífera de Moatize mantém-se como um dos principais polos mineiros de África, com o carvão metalúrgico moçambicano altamente procurado nos mercados internacionais, sobretudo na Ásia.
Ao longo dos últimos anos, o sector foi impulsionado por grandes operadores internacionais, incluindo a presença da Vale e, mais recentemente, da Vulcan Resources, além de investidores indianos, chineses e sul-africanos.
As exportações de carvão tornaram-se uma das principais fontes de divisas do país, contribuindo de forma relevante para a balança comercial. No entanto, o impacto estrutural interno permanece limitado, com baixa transformação industrial e reduzida agregação de valor dentro do território nacional.
Grande parte da produção continua a ser exportada em bruto, enquanto o valor acrescentado da cadeia de transformação permanece concentrado fora de Moçambique.
Constrangimentos logísticos continuam a limitar o potencial exportador
Apesar da importância estratégica do sector, persistem desafios significativos ao nível da logística e infra-estruturas. O Corredor de Nacala e a Linha de Sena continuam a ser fundamentais para o escoamento mineral, mas enfrentam limitações de capacidade, custos elevados e dependência de infra-estruturas concessionadas.
Estas restrições reduzem a competitividade do país num contexto de crescente concorrência global por matérias-primas estratégicas.
Grafite de Cabo Delgado assume papel-chave na economia das baterias
Se o carvão representa a base da industrialização tradicional, a grafite surge como um dos pilares da economia verde emergente.
O projecto Balama Graphite Project, operado pela Syrah Resources, é frequentemente apontado como uma das maiores minas de grafite do mundo, posicionando Moçambique como actor relevante na cadeia global de baterias de iões de lítio.
A crescente procura internacional por grafite está ligada à expansão dos veículos eléctricos e ao armazenamento de energia, num contexto em que vários países procuram reduzir a dependência de cadeias de fornecimento dominadas pela China.
Desafio estrutural: transformar recursos em desenvolvimento sustentável
Apesar do potencial, especialistas e analistas apontam para um desafio estrutural recorrente: a dificuldade de transformar riqueza mineral em desenvolvimento económico inclusivo.
Historicamente, muitos países africanos mantiveram modelos de exportação de matérias-primas sem grande transformação local, limitando a captura de valor acrescentado e a transferência tecnológica.
Em Moçambique, este risco permanece presente, num contexto em que a necessidade de atrair investimento externo tem levado, em alguns casos, a regimes fiscais favoráveis e integração limitada de cadeias de valor locais.
Entre oportunidade global e risco de dependência
A nova corrida por minerais estratégicos coloca Moçambique numa posição geoeconómica relevante. A combinação entre reservas minerais, localização estratégica e acesso ao mar cria condições favoráveis para integração nas cadeias globais de energia e indústria verde.
Contudo, a capacidade do país transformar esse potencial em desenvolvimento sustentável dependerá da robustez institucional, da política de industrialização e da criação de mecanismos eficazes de redistribuição económica.
Sem essas condições, a abundância de recursos pode continuar a traduzir-se em crescimento limitado e dependência de exportações primárias, em vez de transformação estrutural da economia.
Fonte: Revista.Tempo.